segunda-feira, dezembro 17, 2012

 

 
Um maravilhoso e inesquecível conto
 
Uma das histórias que ouvi e ainda ouço de mamãe, atualmente com 87 anos, é o conto "A corda de areia", no rol de outras centenas de histórias, entre romances, contos, filmes e casos verídicos, alguns destes ouvidos de pais e avós. Algumas são inesquecíveis e marcantes pela importância como lições de vida, trato ao próximo e outros aspectos humanos. E "A corda de areia" sempre foi uma de minhas preferidas, mas mamãe não lembrava o autor. Com o surgimento da internet cheguei a pesquisar sua autoria, mas não tive êxito. Dia destes conversando em casa com minha irmã Rúbia veio à tona a tal história. Ela com mais habilidade na busca tecnológica encontrou o nome do autor: Malba Tahan. Este é o principal heterônimo do brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), professor de Matemática, autor de vários livros com dezenas contos protagonizados por gente do mundo árabe. A referida história se passa em um país onde os velhos foram exterminados pelos jovens que passaram a governá-lo. Tudo ia muito bem até que um dia chegou ali uma comitiva de um país vizinho reivindicando uma extensa e cobiçada faixa territorial de solo fértil margeando um rio. Os visitantes trouxeram um tratado assinado fazia décadas entre os governantes dos dois países, deixando os então dirigentes jovens atônitos sem saber o que fazer e o que dizer. Como constatar a veracidade daquele documento? Como reverter a situação? A solução seria apresentada no dia seguinte pelo jovem Ministro do Exterior após este consultar seu pai, o único velho que sobrevivera à matança e passara aqueles últimos anos escondido pelo filho em um subterrâneo. Se quiser saber o que aconteceu leia o texto original abaixo, cujo autor inspirou um outro brasileiro décadas depois que ficou rico escrevendo sob a influência do mestre.
  


A Corda de Areia
Malba Tahan
                                                                                                                                                                                                       
 
- A velhice entrava o progresso! - proclamavam os mais exaltados. - Esse belo país entregue aos moços será mil vezes mais forte, mil vezes mais feliz e glorioso!
O espírito surdo de revolta foi-se apoderando dos jovens. Que lástima (diziam) esse governo decrépito de anciãos! Que lástima!
Não se sabe como, mas a inominável desgraça ocorreu. Precipitaram-se os acontecimentos. Por todos os recantos surgiam fanáticos e conspiradores.
- Eliminemos os velhos! Acabemos com essa senilidade inútil!
É triste relatar. Que nódoa para o mundo, que ignomínia para a História! A mocidade de Kid-Elin, presa de terrível e hedionda alucinação, exterminou todos os velhos.
Todos, não. Houve um que se salvou da hecatombe. Vivia em Kid-Elin um rapaz chamado Zarmã que tinha por seu pai (homem bastante idoso) uma grande, nobre e sincera afeição. E no dia da execrável revolta escondeu o velho no fundo de um subterrâneo, livrando-o assim de cair em poder dos revoltosos homicidas. Para Zarmã a vida de seu pai era um segredo que ele não ousava revelar a ninguém.
Voltemos, porém, à nossa narrativa. Exterminados os velhos, o país de Kid-Elin passou a ser governado unicamente pelos moços, alegres e inexperientes. Para o cargo de Presidente da República elegeram um jovem de vinte e dois anos; o ministro mais amadurecido pela idade não completara dezoito anos; vários generais eram, apenas, adolescentes; o Supremo Tribunal foi entregue a um mancebo de vinte anos incompletos: da direção do Banco Nacional encarregou-se um novato, que precisamente no dia da posse festejava sua décima quinta primavera!
Os juvenis governantes de Kid-Elin proclamaram com alvoroço a vitória:
- Eis o único país do mundo que não tem velhos! Aqui é a mocidade que governa, resolve e desresolve!
Certas notícias correm pela terra com a rapidez do relâmpago pelo ar. No fim de poucas semanas recebia o mundo a informação do movimento de Kid-Elin.
- Kid-Elin é o país dos jovens! Vamos todos para Kid-Elin.
E as estradas encheram-se de turistas e curiosos que iam em busca da nova República.
Para empanar a esfuziante alegria dos jovens senhores de Kid-Elin verificou-se um fato profundamente inquietante e desagradável. De Beluã (reino vizinho) foi enviada aparatosa embaixada constituída de técnicos, jurisconsultos e economistas. Essa embaixada, ao chegar, procurou o jovem Presidente da República e fê-lo ciente de
sua espinhosa e delicada missão. Tratava-se apenas do seguinte: O reino de Beluã, por seus legítimos representantes, exigia dos moços a devolução imediata de todas as terras que se estendiam para além do rio Helvo.
E o chefe da embaixada exprimiu-se em termos bem claros, sem poesia e sem retórica:
- O governo beluanita, firmado em seus direitos, exige a entrega imediata do território em litígio. - Temos um tratado, nesse sentido, com Kid-Elin. Aqui estão os documentos.
O Presidente, os Ministros e Magistrados de Kid-Elin examinaram os títulos e as escrituras. Tudo parecia claro, líquido, insofismável. A República de Kid-Elin era obrigada a entregar ao seu poderoso vizinho (em virtude de um acordo feito vinte anos antes), léguas e léguas de uma terra dadivosa e rica!
Que fazer? Seria a ruína para o país. Seria a desgraça para os jovens!
Foi então que o jovem Zarmã (que era o Ministro do Exterior) teve uma inspiração. Lembrou-se de seu velho pai.
- Vou consultá-lo sobre esse caso - pensou. - Meu Pai, com a experiência que tem da vida, saberá descobrir uma solução para essa questão das terras do Rio Helvo.
- Mais tarde, meu filho - afiançou o velho encolhendo os ombros - mais tarde entrarás também na posse desse grave e precioso segredo. Por ora é cedo. Segue o meu conselho, e tudo estará resolvido para o bem de nossos patrícios!
Cega era a confiança que o diligente Zarmã depositava em seu Pai. No dia seguinte recebeu a embaixada reclamante, e na presença do Presidente, Ministros, Magistrados, Generais e altos-funcionários (eram todos muito jovens) repetiu fielmente as palavras que ouvira do ancião:
- A República de Kid-Elin está resolvida a devolver o território por vós reivindicado. Exige, porém, que o Reino de Beluã cumpra na íntegra os seus compromissos e devolva intacta a corda de areia!
Ao ouvirem tal sentença mostraram-se alarmadíssimos os embaixadores beluanitas. Aquela exigência final, expressa pela exigência da devolução da "corda de areia" caiu como uma bomba no meio deles. O chefe da embaixada ficou pálido e trêmulo. E depois de trocar algumas palavras, em voz baixa, com seus conselheiros e ajudantes, assim falou de rompante, com nervosa decisão:
- Desistimos de nosso pedido. Podeis conservar, para sempre, o território do Helvo, com todos os seus campos e searas.
Neste ponto fez o estrangeiro uma pausa, e logo ajuntou com voz estorcegada, cortante de ironia e rancor, sacudindo o busto com dureza:
- Cabe-me, entretanto, desmentir as notícias propaladas pelos vossos agentes e emissários. Posso jurar que a República dos jovens não existe. Tudo mentira! Há velhos, ainda, neste país!
Mas, afinal, que significa isso: - Corda de areia?
Eis o segredo que o Tempo (e só o Tempo) se encarregará de revelar aos jovens. A velhice é um tesouro. Tesouro de sabedoria, clarividência e discrição. Sem o amparo seguro da velhice, a parcela jovem da humanidade estaria perdida e extraviada, pelos descaminhos da vida. É a velhice que sabe onde encontrar essa maravilhosa corda de areia que liga o Passado ao Presente e enlaça o Presente com o Futuro.
E o bondoso e paciente rabi Haggai repetia quarenta vezes falando aos discípulos atentos:
- Lembrai-vos, meus jovens amigos, lembrai-vos sempre da  "corda de areia".                                           
 
  

 
 


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