terça-feira, setembro 01, 2009


A marca de Zorro nas polícias



Sempre que vejo na mídia em matérias policiais imagens de delinqüentes e material produto de crime tendo como pano de fundo um banner com brasões e insígnias policiais eu me lembro da “marca de Zorro nas polícias”, cuja expressão eu ouvi pela primeira vez pronunciada por um oficial da Polícia Militar da Bahia há cinco anos em palestra realizada na capital baiana. É preciso, antes, esclarecer ao leitor mais novo, quem é o Zorro. Nas décadas de 60 e 70, no cinema e na TV, faziam sucesso o Zorro caubói e o Zorro espadachim, personagens justiceiros que escondiam suas verdadeiras identidades atrás de uma máscara negra. O espadachim, perseguido sempre pelo obeso sargento Garcia, a cada ação realizada, sempre com sucesso, é claro, insculpia a letra “Z” com a ponta de sua espada na testa do bandido, nas paredes ou em qualquer parte visível do local onde estivera em ação, como marca de seu triunfo. Pois bem, há alguns anos policiais de todas as esferas, sem distinção, quando prendem criminosos e apreendem produto de crime (drogas, armas, munições e objetos e dinheiro furtado, roubado ou obtido de alguma forma criminosa) perdem uma parte de seu precioso tempo para realçar suas atuações e de suas corporações, inserindo suas marcas (brasões e escudos) no mesmo lugar onde são fotografados os presos e exposto o material apreendido. E na falta eventual desses escudos é utilizada toda sorte de identificação: distintivos, bonés, jaquetas e outros objetos para por em destaque a instituição que realizou o serviço, valendo até utilizar munições para, de forma bem arrumada, montar as siglas do segmento que prendeu e apreendeu. E essa mania já se estende a outras instituições como a Polícia Rodoviária Federal, Guarda Municipal, Ibama, e por aí vai. E essa prática sem sentido já virou espécie de ritual, sem nenhum resultado prático a tornar eficaz ou melhorar a prestação do serviço, a não ser evidenciar de certa forma a ingenuidade de quem se presta a tal tipo de exteriorização de vaidade, servindo mais para acirrar uma disputa entre órgãos que integram a segurança pública, pois, de concreto nada advém desse modismo com relação ao indivíduo e a coletividade destinatária do serviço. A situação chega a evoluir internamente na disputa entre divisões, grupamentos e companhias de uma mesma instituição ou corporação policial, cada um querendo aparecer mais do que o outro. De quem afinal querem chamar atenção? Dos bandidos soltos, da sociedade que com certeza não se ilude mais, dos governantes e seus assessores diretos? Mera ilusão! Enquanto isso a demanda do crime é assustadoramente crescente e nenhuma política pública ou estratégia a curto, médio e longo prazo parece ser posta em prática. E se é posta, seu resultado é desalentador. No final das contas até mesmo os agentes públicos dessa ruidosa exposição inútil integram o extenso rol das vítimas, pois, não raro policiais são assaltados e tomadas suas armas. A situação toma contornos mais preocupantes, pois, as equipes que fazem as prisões e apreensões antes de chegar à delegacia, onde será formalizada a prisão ou apreensão, alongam seu trajeto para dar uma passadinha em seus quartéis ou repartições e fotografar os “troféus” em frente a banners cuidadosa e previamente instalados, fazendo divulgação pela mídia daquilo que entendem como sendo a glória alcançada que não pode ser repartida. Na realidade nada mais do que um dever de ofício, uma obrigação, que no fim das contas não influi e nem contribui para aumentar seus salários, melhorar as condições de trabalho, propiciar melhor qualificação ou obter qualquer outro benefício ou vantagem, servindo sim, de reprovação muda da sociedade que não se ilude mais com pirotecnia e práticas inócuas.


Um comentário:

Alan Wantuir disse...

Dileto amigo, nas entrelinhas, sabemos muito bem o que acontece com essa, digamos, exposição inútil, até porque, as instituições policias são impessoais. Acho até que seria melhor mostrar os rostos dos policias que participaram da operação. Saber se eles iriam consentir, isso é outra coisa.

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