sábado, junho 23, 2012


A ética por 1m35s


Lula, Haddad e Maluf se cumprimentam após selarem o acordo entre PT e PP em São Paulo
Foto: Léo Pinheiro/Terra


Quando menino ouvi uma conversa de adultos tendo alguém argumentado que todo homem tem preço, todo homem se vende. Esse argumento se dava diante de um fato trazido à baila naquela oportunidade de que um eleitor da cidade interiorana em que eu nasci e morava teria recebido uma quantia ínfima para vender seu voto. Seus críticos diziam que o tal eleitor ao incorrer em desonra nem ao menos se valorizara vendendo seu voto correspondente a uma galinha. E quem falou sobre o preço da honra alegou ter lido um artigo do jornalista David Nasser que na política partidária todo homem tinha um preço, se não se vendesse por 100 cruzeiros (moeda circulante à época), se vendia por 1000, por um milhão ou fosse qual fosse o preço, mas se vendia! Sempre lembro aquela conversa mas não sei se a referência ao jornalista que era estrela da revista de maior tiragem de então, ligado ao poder, era verdadeira ou apenas argumento de ocasião, mas parece admissível diante da controvertida biografia de seu alegado autor.  O tempo passou e vi que sendo ou não de Nasser aquela concepção ela é plausível, pois é fato, principalmente em nosso país, políticos inimigos figadais de ontem tornarem-se “amigos desde criancinhas”, tudo pela conveniência, tudo pela ambição ao poder. Nos últimos trinta anos, após o processo de abertura e anistia política no país, a volta do pluripartidarismo e das eleições diretas, ocorreram e ocorrem as mais absurdas e espúrias parcerias. O ator mais célebre dessas coligações (como se usava antigamente) é aquele que “nunca antes na história desse país” já fez tanto de tudo, de quem se pode esperar as mais estapafúrdias e asquerosas alianças (como se diz atualmente), a começar com a que foi feita para sua eleição ao maior cargo da nação quando se aliou a alguém de biografia rotulada de “memória das trevas” e que servira aos militares no poder com quem que romperia logo após ter atingido seu objetivo. Agora, no início desta semana, o destacado líder voltou aos seus negócios com um de seus mais históricos desafetos, alguém de quem há doze anos declarou que deveria estar atrás das grades e condenado à prisão perpétua por causa da roubalheira na prefeitura paulista. A ética e a moral foram lançadas no lixo e o “negócio” como “nunca antes na história desse país” havia ocorrido não custou um milhão, dez milhões, cem milhões de reais. Seu custo foi um valor que não foi dinheiro, mas apenas 1 (um) minuto e 35 segundos de acréscimo ao tempo de TV da campanha de seu partido à prefeitura paulista. E o negociante ”como nunca houve na história desse país” desceu do alto de sua embófia e foi até à mansão do seu antes adverso e agora parceiro eterno até cessada a conveniência, onde após a negociação trocaram gestos de cortesia, tapinhas nas costas, apertos de mão, repetidos sorridos, de costas à ética, adotando o argumento tão tripudiado e agora oportuno: “às favas os escrúpulos de consciência”.


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