domingo, novembro 11, 2012



 
 
 
 
E o dia anoiteceu alviazul

Não foi porque o céu belenense estivesse azul com nuvens brancas. Eram as bandeiras e camisas listradas de azul e branco, empunhadas e vestidas por torcedores do Papão da Curuzu que tomaram a partir das dezoito horas a Doca de Souza Franco, uma das vias tradicionais de concentração da capital paraense, ao final do jogo Macaé (RJ) e Paysandu, comemorando o retorno do clube do coração à série B do Campeonato Brasileiro, depois de insistir por seis temporadas. Égua – como dizem nossos conterrâneos – até que enfim saímos dessa situaçãozinha peba. Oportuno o manjado lítotes “já não era sem tempo”. E reparem a data do ocorrido: 10/11/12. Dá pra esquecer? A situação era tão incômoda que até alguns remistas, nossos tradicionais adversários, estavam torcendo em prol. Aliás, como deve fazer o torcedor equilibrado, pois era o Pará representado por um clube de massa. Já torci várias vezes para eles. Aliás, meu saudoso pai era remista. Mas ele não interferiu em minha escolha. Quando eu tinha oito anos e morávamos no interior, certo dia a quando de uma de suas rotineiras viagens à Belém perguntou-me por qual clube eu torcia que ele iria trazer-me a respectiva camisa. Respondi e enfatizei que era o Paysandu, insistindo que não esquecesse. E ele não esqueceu. Ao seu retorno brindou-me com minha primeira camisa listrada alviazul com o escudo do pé alado. Agradeci entusiasmado. E cinco anos depois, quando já morávamos em Belém vim saber que ele era azulino. Administramos nossas simpatias clubistas numa boa. E houve fases em que torcemos juntos pelo seu glorioso Remo quando estava em evidência. Uma delas, foi no jogo Remo 2 X 0 Operário-MS, em 1978. Com o estádio Mangueirão lotado estivemos na mesma arquibancada torcendo e vibrando juntos nos gols do seu clube do coração. Imagino hoje sua satisfação naquele memorável dia 20/02/78, estar torcendo por seu clube do coração ao lado de seu único filho. Inesquecível! Não sei se essas questões afetivas me fizeram um torcedor transigente, mais coerente, a concluir que Remo e Paysandu são irmãos siameses. Se um acabar, o outro fatalmente não será o mesmo. E é nessa oposição racional que se congregam colegas, amigos e parentes, cuja separação se dá unicamente quando os dois jogam entre si. Meu filho Hermom que é Paysandu desde criancinha, quando garoto e adolescente era alvo das ironias de papai, principalmente naqueles cinco anos do penta (93 a 97). Acabava um jogo entre os dois tradicionais rivais, quando o Remo ganhava, ele telefonava para casa e quando o neto atendia ele perguntava o resultado do jogo como se não estivesse ligado no rádio. E à resposta do neto de que seu time havia perdido meu velho sarcasticamente dizia: “Puxa, já tá na hora do Remo perder, dar uma chance ao Paysandu. A culpa é do teu pai em te impor torcer por esse time. Olha eu não mandei ele torcer pelo Paysandu”. O neto sabia que era gozação, mas, respeitosamente não retrucava. E rindo saia com uma evasiva qualquer. E ele se foi quando seu Remo era penta. Mas, vamos ao memorável jogo de ontem. Foi um espetáculo que ao final reuniu em campo jogadores, comissão técnica e membros da diretoria, inclusive meu mencionado filho que está conselheiro e diretor do seu clube. E quando o vi chorando cheguei a rir e achar inadequado aquele choro. Já ganhamos títulos memoráveis, inclusive quando ele tinha 10 anos estávamos juntos no Mangueirão, do mesmo lado que estivera com papai, e vimos o Papão ganhar o primeiro título de campeão da série B, em 26/05/1991, ganhando de 2 X 0 do Guarani. E ele não chorou. Um ano depois, em 1992, vimos o nosso Papão ganhar do inesquecível time do São Paulo, de Zetti, Cafu, Rai, Palhinha e Muller. E ele não chorou. Esse mesmo time paulista que em dezembro daquele ano aqui perdera de 3 X 0 para o nosso Papão, foi campeão mundial em Tóquio. Minutos antes daquele jogo fui com ele até o corredor do vestiário dos visitantes e à saída dos jogadores ele obteve num caderno seu os autógrafos de Zetti, Raí e Muller, exibindo-os no dia seguinte a seus colegas da escola e da rua. Tantos outros jogos vitoriosos estivemos juntos, como num 2 X 0 contra o Flamengo.  Mas, em nenhum deles meu garoto chorou. Logo entendi que no choro de ontem estava embutido um desabafo pelas constantes e arrasadoras críticas, inclusive minhas, à atual gestão do clube. Era como se um pesado fardo tivesse sido aliviado. Não importava os erros e desacertos anteriores. Agora, naquele momento, ele fazia e faz parte de uma gestão que trouxe o alviazul de seu coração de volta a um lugar mais honroso do futebol brasileiro. E assim, nem só o dia anoiteceu alviazul, mas amanheceu da mesma forma para o deleite da nação do mesmo tom.

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