quarta-feira, maio 30, 2007

Sôzindiozinho e kelo domi de keka
O título deste texto soa como expressão de alguma língua aborígine ou algum dialeto desconhecido. Mas, na realidade é a expressão de meu filho Jordão com dois anos e três meses, cujo significado será esclarecido mais adiante.Numa dessas noites minha mulher Cristina quis tirar as cuecas do menino para lhe colocar a fralda noturna e depois o pijama. Ele começou a se opor a essa situação. “Num quelo, num quelo, não mamãe, num quelo”, segurando sua cuequinha para não ser tirada. E a mãe insistindo, alternando autoridade e docilidade. Mas, mesmo assim o menino se mantinha irredutível para ficar só de cuecas, como passa a maior parte do dia em casa. Resolvi intervir como mediador. “Meu filho – contemporizando – tira a cueca e veste a fralda para não urinar na cama”. E ele replicando: “Não, num quelo, num quelo”. Refleti e vi que estava lidando com um amazônida turrão, descendente dos antigos habitantes desta abençoada terra que durante milênios aqui viveram nus. Por causa do clima equatorial quente e úmido eles não precisavam de roupa. A maior parte do ano a temperatura varia de 27 a 35 graus. Então, pra quê roupa? Mesmo diante de torrencial chuva não faz frio, apenas uma agradável temperatura. Aí ponderei. “É, Cristina, ele é um indiozinho e índio não gosta de muita ou quase nenhuma roupa, deixa ela ficar só de cuecas”. Sentindo-se apoiado Jordão pegou o gancho e disse à mãe “Sôzindiozinho e kelo domi de keka”. O significado evidente: sou indiozinho e quero dormir de cuecas. Daquela noite em diante, com algumas raras exceções, o curumim dorme so de cuecas e não urina na cama. E nem na rede, pois, como bom nortista não dispensa uma rede, revezando com a cama durante a noite. E quando eu e minha mulher, de brincadeira, queremos provocá-lo e dizemos para ele vestir fralda noturna a sentença vem imediata: Sôzindiozinho e kelo domi de keka.


Belém, 23/05/2007

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